03 maio 2015

Feridas

"Ali imposta, quase feia, nada simétrica. Ele carrega pra lá e pra cá isso que chama serenidade mas é só mais um conformismo barato. Duro. Penoso como todo fingimento de novela mexicana, mais inacreditável que prêmio da Mega Sena ou quem se diz entendedor de mandarim. Nunca à vista de primeira, talvez ainda latente e pronta pra existir, porém: em quase cicatrizada. A casca se criou feito um escudo invisível e fecha o peito todo, desarma os movimentos, cria desculpas esdrúxulas, quebra serendipidades em instalação. É sempre feia e autoimune, amostrada do pior e esquecida do beijo decente, do gozo fácil, das conexões todas tão gratuitas e sinuosas; genuínas. Dessas de fazer parar o bar e fitar os olhos e sair da boca sem controle uns dizeres tipo “mas parece que a gente se conhece há um milênio” – pra depois chegar em casa e umidificar ainda mais o mofo interno para que cresça, não pare, deixa na mão esse limbo não, vai. 

E dia após dia, a casca se fortifica. Ninguém deixa que o outro cutuque de leve pra ver se cai assim, num puxão. Nesses minutos em que uma mão, qualquer uma, se aproxima e a gente teme o mundo por ficar tão exposto de novo a taquicardia ataca mas o medo é sempre mais, sempre rei. A gente vaga pelas ruas como se não visse as crostas alheias, tão cheias de talvezes e ses e cuida da própria ferida de estimação pra que cure eternamente e nunca mais se abra, ainda que isso signifique um tédio from hell. Malucos os que se deixam sangrar mais de duas ou três vezes por ano, são doentes aqueles que sofrem por nunca tocar ninguém tão afundo apenas porque nem flecha de cupido e tampouco boa vontade ou alguma centelha prendem os que já tiveram a parte vital do corpo triturada. As pessoas se orgulham de suas crostas emocionais cheias de colagens malfeitas de encontros furtivos e nenhum apego, lembranças embaralhadas sem data concisa, um vazio melhor que o cheio caótico de querer perto, gostar do cheiro, ser escravo da pele.


É engraçada a secção que se cria entre quem já está quase curado de alguma paixão nocauteadora e aqueles que ainda se escondem atrás de doses de álcool, trabalho excessivo, rudeza calculada. É uma colisão e tanto quando mesmo pertencentes ao mesmo mundo, ambos chocam seus momentos e tudo se parte sem nenhum adeus ou "a gente se fala" mal dito apenas pra amortecer o tombo. Por favor, que nada nos toque, que deus livre a nossa cara fechada de se abrir porque alguém sorriu cheio de luz do outro lado da rua, das nossas certezas, desnudo de uma pele já morta pela falta do sentir. Um repente e logo dá pra chegar em casa com brilho na pele e a leveza de flutuar embaixo dos pés. A casca também é peso, e quando por fim rui é possível ir até Paris de nuvem em nuvem, voar.


A ferida um dia abre e é mais maravilhoso que ver desabar as gotas que caem do céu em épocas de seca. Chega uma hora em que a gente cansa de afastar perigos humanos e esquece de trancafiar a sete chaves e sem aviso prévio ou demissão, passa-se fácil de ex-defensor do não-romance a um apaixonado irreversível. A casca é temporária e essencial: só se trancafia por determinado tempo quem pretende se desobstruir mais tarde. Mágico é quando o escudo sem querer escorrega, já calejado feito casca que acompanha o ritmo da água no banho: temos de novo as mãos livres, o coração limpo, dá até vontade de ir viver e não se fechar nunca de novo no rebuliço interno de machucados tão feios na intenção de assustar o outro. De repente alguém dá um selinho e sara, nem se nota mas tem dias que a loucura alheia nos suga pelo ralo e lá se foi toda uma proteção tediosa e previsível. É pegar a chance de dançar num cometa ou largar num canto essas pessoas que passam pela vida da gente de rotas em rotas da Terra pelo Sol. Mesmo em ruínas, eu opto pela aventura - sempre. Nunca mais bocejei."
 

Camila Paier.